Despertando – Episódio 01

Educação e Cultura de Paz

Como podemos contribuir para a formação de uma cultura de paz?

Se preferir, ouça esta reflexão.

O tema deste episódio é Educação e Cultura de Paz. Vou tratar sobre as transformações que precisamos realizar para que passemos de uma Cultura de Violência para uma Cultura de Paz, salientando o papel decisivo que a Educação exerce dentro deste processo. Pretendo ainda estimular uma reflexão a respeito da paz, do que ela significa e do que podemos fazer para alcançá-la.

Considerações sobre a Cultura de Violência

Antes de qualquer coisa é importante observarmos a cultura de violência na qual a maior parte de nós vive e a relação direta que ela possui com o paradigma dominante, com o Modelo de Civilização adotado e com o Sistema Educacional vigente. São elementos interligados e que se retroalimentam.

Fritjof Capra definiu paradigma social como “uma constelação de concepções, de valores, de percepções e de práticas compartilhados por uma comunidade, que dá forma a uma visão particular da realidade, a qual constitui a base da maneira como a comunidade se organiza.”

Ainda de acordo com Capra o paradigma mecanicista que dominou a sociedade ocidental por vários séculos, influenciando o mundo todo, consiste em ideias e valores tais como a compreensão do universo como um sistema mecânico, do corpo humano como uma máquina, da vida em sociedade como uma luta competitiva, da crença no progresso material ilimitado e da mulher como inferior ao homem.

Podemos também afirmar que é um sistema de caráter antropocêntrico e individualista, no qual o poder se encontra centralizado e organizado hierarquicamente.

Soma-se a esse paradigma, um Modelo de Desenvolvimento Econômico, baseado em padrões de produção e de consumo insustentáveis e que prega o crescimento material ilimitado. O aspecto econômico é tido como principal indicador de desenvolvimento de uma região, restando relegados em último plano os aspectos ambientais, sociais e culturais.

É um modelo movido por uma sociedade de consumo, que fundamentalmente busca conforto e “status”. Ambos se referem a conquistas materiais e são entendidos como sucesso pela nossa sociedade. Logo, se você é um indivíduo que dispõe de muitas comodidades e que ostenta uma posição social considerada importante você será visto como um indivíduo de sucesso. No entanto, em vez de sucesso o que vemos frequentemente é uma sociedade doente, violenta e egoísta e que favorece significativamente o avanço dos desastres sociais e ambientais.

O sistema educacional vigente em boa parte do planeta, se integra e sustenta tanto esse paradigma obsoleto quanto o modelo de desenvolvimento capitalista. É entendido como o processo de ensino que ocorre no âmbito escolar e que privilegia o desenvolvimento de capacidades intelectuais. É um modelo que gera indivíduos consumidores, em geral, desconectados dos fenômenos que os cercam, bem como de sua natureza humana.

O conjunto desse fatores colaborou para a formação da nossa sociedade violenta, insatisfeita e insustentável. E para transformarmos essa realidade em uma realidade de cultura de paz devemos estabelecer novas relações, contribuindo para a formação de um novo paradigma, de um novo modelo de desenvolvimento e de uma educação voltada para a cultura de paz.

Estabelecendo novas relações para uma Cultura de Paz

O paradigma emergente é chamado por Capra de “visão de mundo holística” e percebe o mundo como um todo integrado, no qual todos os seres e fenômenos se encontram interligados e são interdependentes. Esta percepção sistêmica reconhece que todos nós, indivíduos e comunidades, fazemos parte dos ciclos da natureza, da qual somos dependentes. Implica em desenvolvermos a capacidade de pensar de forma complexa, sistêmica, contextual ou ecológica, quer dizer, uma maneira de pensar que seja capaz de estabelecer conexões entre os mais diversos fenômenos que ocorrem ao nosso redor.

Além do pensamento sistêmico, este novo paradigma se pauta numa ética ambiental e se propõe a resgatar e fortalecer princípios e valores humanos, apresentando como elementos definidores a empatia, a solidariedade, a cooperação, a cidadania ativa e o amor pela vida. Se caracteriza ainda pela organização em rede, na qual o poder se apresenta de forma descentralizada.

Empatia significa a capacidade de partilhar os sentimentos e as emoções do outro, colocando-se no lugar deste outro e se imaginando na situação do outro. E tendo em vista uma educação ecológica planetária vamos expandir este outro para um ser humano ou não humano.

Solidariedade consiste no ato de apoiar, ajudar ou defender outro que esteja em situação de necessidade. Ser solidário implica em tomar uma ação, em não ser passivo ou indiferente em relação a uma determinada situação. E uma vez que a pessoa se tornou empática a solidariedade acontecerá mais naturalmente. Pois se eu sinto a dor do outro é mais provável que eu me disponha a fazer algo a respeito.

Precisamos nos libertar de hábitos e de crenças insustentáveis e desenhar uma nova maneira de viver em sociedade. Podemos fazer isso observando os sistemas naturais e adotando formas diferentes de conviver que estejam em harmonia com a nossa verdadeira natureza espiritual e que esteja baseada no respeito a todos os seres vivos e não vivos.

Aqui, apenas uma pequena ressalva: logicamente estou me referindo a grande parcela da espécie humana que ainda não se percebeu enquanto mais uma espécie viva que deve coexistir de forma integrada com os demais elementos da natureza.

No que se refere ao Modelo de Desenvolvimento, precisamos fazer a transição de um Modelo de Desenvolvimento Econômico para um Modelo de Desenvolvimento Sustentável. Este possui caráter sistêmico e complexo, internalizando em suas decisões questões ambientais, sociais, econômicas, culturais, e políticas. Neste cenário, desenvolvimento corresponde à evolução integral da espécie humana, o que envolve uma convivência harmoniosa com os demais elementos da natureza. E, em vez de sociedade de consumo, é um sistema que gera e se sustenta a partir de comunidades sustentáveis.

No âmbito da educação, pensando em um modelo que promova a formação de uma sociedade pacífica e sustentável, ela deve ter como propósito a formação de indivíduos cidadãos, dotados de princípios e de valores humanos e que sejam capazes de estabelecer conexões, considerando uma percepção contextual das diferentes realidades.

Nesse sentido, é importante que a educação não seja confundida com escolarização ou com instrução. Ela deve ser compreendida conforme sua essência. Ou seja, enquanto processo amplo e profundo, que visa a formação integral do ser humano, envolvendo o desenvolvimento de potencialidades morais, intelectuais, espirituais, físicas, psicológicas e emocionais.

Educação é ato político transformador, capaz de promover as mudanças necessárias para estabelecermos uma Cultura de Paz. Deve ser crítica e reflexiva, se realizando de dentro para fora e gerando mudanças em seu entorno. A educação como formadora de cidadãos ativos, capazes de atuar em suas comunidades se apresenta como elemento indispensável na formação de uma sociedade de paz, o que por sua vez é essencial para nossa evolução coletiva enquanto espécie humana.

Já passou da hora de nós seres humanos nos tornarmos humanos de fato e criarmos novas maneiras de estar no mundo. Uma maneira que não acabe com as condições de vida da nossa própria espécie e que respeite todo ser vivo e não vivo habitante deste Planeta.

Educação para uma Cultura de Paz

O que podemos entender como Paz? O que significa?

A Carta da Terra nos traz uma definição sobre paz que diz: “Paz é a plenitude criada por relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, outras culturas, outras vidas, com a Terra e com a totalidade maior da qual somos parte.”

De acordo com este conceito podemos perceber que a paz pode ser criada e entendo que o caminho para esta criação passa necessariamente pela Educação. É urgente trabalharmos em prol da Educação para uma Cultura de Paz. Esta deve ser um meta a ser buscada de forma intencional e direcionada. Devemos contribuir para uma educação que possibilite a criação destas relações corretas, de respeito e de amor.

E quais relações esta educação para a paz deve trabalhar? Tendo em vista a definição trazida pela Carta da Terra, tratam-se de relações que abrangem 4 esferas: individual, social, ambiental e cósmica.

  1. Ao mencionar “relações corretas consigo mesmo”, a Carta está tratando de uma esfera individual, que é relativa ao cuidado que eu devo aprender a ter comigo mesma. O que pode, por exemplo, englobar minha saúde mental, a saúde do meu corpo material, meu bem-estar emocional e espiritual.
  2. Quando fala em “relações corretas com outras pessoas, outras culturas”, entra em uma esfera social, referente à forma como eu me relaciono com todos os seres humanos. O que compreende minha capacidade de conviver amorosamente com as diversidades, com as diferenças, sejam elas de crença, de sexo, de gênero, de raça, etc. Envolve ainda minha capacidade de transcender, de sair de mim mesma e me colocar no lugar do outro, de enxergar pelos olhos do outro. E com isso desenvolvo uma inclinação natural a querer contribuir para o bem-estar do outro.
  3. Temos ainda a esfera ambiental, quando a Carta menciona “relações corretas com a Terra”. Diz respeito ao tratamento que eu ofereço a toda forma de vida, a todo ser vivo e não vivo que coexiste no Planeta Terra, reconhecendo o valor intrínseco de cada um. Posso refletir sobre como é minha relação com os demais elementos da natureza (além do humano).
  4. E, por último, podemos observar uma esfera cósmica, ao apontar “relações corretas com a totalidade maior da qual somos parte”. Trata da relação que eu estabeleço com o Universo do qual faço parte. O que envolve um sentimento de pertencimento com o Todo.

Podemos notar que todas estas demandas podem ser devidamente trabalhadas, se partirmos de uma concepção de educação complexa e profunda, como vimos anteriormente.

Manifesto 2000

Quero mencionar ainda documento referência dentro deste assunto e que corrobora com tudo que vem sendo dito até aqui. É o Manifesto 2000 da Unesco por uma cultura de paz e não-violência. E o que é esse Manifesto?

É um documento escrito com o objetivo de criar um senso de responsabilidade que se inicia em nível pessoal. Declara que juntos nós podemos transformar essa cultura de guerra e de violência em uma cultura de paz e não-violência. Diz ainda que a Cultura de Paz possibilita o desenvolvimento sustentável e o crescimento pessoal de cada ser humano.

Traz 6 compromissos a serem assumidos diariamente por cada um de nós. São eles:

  1. Respeito ao ser humano, sem discriminação ou preconceito;
  2. Não-violência ativa, rejeitando a violência em todas as suas formas, seja ela física, sexual, psicológica, econômica ou social;
  3. Compartilhar meu tempo e meus recursos cultivando a generosidade;
  4. Defender a liberdade de expressão e a diversidade cultural, privilegiando sempre o diálogo e a escuta, sem ceder ao fanatismo, à difamação e à rejeição do outro;
  5. Promover o consumo responsável e um modo de desenvolvimento que respeite todas as formas de vida e que preserve o equilíbrio do planeta;
  6. Contribuir para o desenvolvimento da minha comunidade de modo a criarmos novas formas de solidariedade.

Gostaria de destacar fortemente nesse Manifesto 2000 o fato dele não se destinar a governos ou a altas autoridades. Em vez disso, se direciona às pessoas individualmente. Chama cada cidadão a reconhecer sua cota de responsabilidade e a agir diferente. Para isso, propõe a assunção de 6 compromissos a serem observados na nossa rotina, no contexto da família, no local onde trabalhamos, no bairro, na cidade, no país em que vivemos, com o intuito de nos tornarmos multiplicadores da Cultura de Paz. Fala sobre a responsabilidade de cada um em adotar valores e formas de viver que inspirem uma sociedade sustentável e uma Cultura de Paz.

Moral da história

Todas as pessoas, eu, você, todos nós precisamos assumir a responsabilidade por nossos próprios atos, na medida das possibilidades e da realidade de cada um. Tendo em vista as gigantescas desigualdades sociais, quanto mais condições uma pessoa tem, maiores serão as suas responsabilidades. Para isso, eu posso começar refletindo ativamente sobre essas três questões: como eu penso, como eu sinto e como eu ajo. Todas elas estão intimamente ligadas com paradigma, modelo de desenvolvimento e educação. E a partir daí buscar coerência entre estes campos. Posso contribuir para uma cultura de paz de várias formas. É possível colaborar tomando decisões de consumo, participando ou promovendo manifestações pacíficas, denunciando casos de violência, expressando opiniões, praticando a comunicação não violenta, vibrando positivamente, entre outras.

No momento em que eu me educo, e conquisto mente, coração e mãos limpos, isto é, quando eu me torno capaz de pensar de forma integrada, de sentir a dor do outro e de tomar ação sobre isso, neste momento estou parindo uma nova vida, estou promovendo uma verdadeira revolução no meu modo de viver.

Para finalizar, desejar a paz mundial não deve ser entendido como uma ideia romântica e inatingível. Pelo contrário, é preciso entendê-la como uma possibilidade real e objetiva, que deve ser buscada todos os dias da minha vida, em cada escolha, em cada tomada de decisão que eu faço. Desejar a paz mundial diz respeito a um desejo pessoal de me tornar uma pessoa que toma o cuidado de desenvolver relações respeitosas com a Vida. E cada um dentro das suas possibilidades, dos seus limites, do seu Universo particular. Na soma das pequenas revoluções individuais podemos conquistar a grande transformação na nossa maneira de viver, rumo a uma vida de respeito e de solidariedade.

Fontes e Referências:
– Carta da Terra, 2000.
– Manifesto 2000 por uma Cultura de Paz, Unesco, 2000.
– Declaração e Programa de Ação sobre uma Cultura de Paz. 1999.
– A Teia da Vida. Fritjof Capra. 1996.

1 comentário em “Educação e Cultura de Paz”

  1. Vinicius Dictoro

    Parabéns pelo texto, ficou excelente!! Recomendo uma leitura que gostei bastante também, é o livro Ética e Espiritualidade – Como cuidar da casa comum. Livro de Leonardo Boff, irá falar sobre uma nova ética para o cuidado com a Terra e a novas relações e interações com a natureza.

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