Despertando – Episódio 02

Educação Ambiental e Comunidades Sustentáveis

Como podemos transformar o atual modelo de civilização em um modelo de humanidade?

Se preferir, ouça esta reflexão.

Vamos despertar para a relação entre Educação Ambiental e a criação de um mundo melhor?

Refletir sobre educação ambiental significa refletir sobre sentimentos, visões e atitudes que contribuam para a formação de uma maneira respeitosa e sustentável de nós humanos estarmos na Terra. E para entendermos melhor sobre este assunto, que se torna cada vez mais urgente, é importante compreendermos como ele surgiu e com qual propósito.

A partir de 1950 e 1960 começaram a ser noticiadas as primeiras grandes tragédias socioambientais, como a Doença de Minamata no Japão e o Grande Nevoeiro de Londres. Desde então intensificou-se a publicação de estudos e a realização de encontros internacionais em torno da questão ambiental, que logo se viu atrelada ao tema da Educação Ambiental.

Rachel Carson escreveu “Primavera Silenciosa” (1962) alertando para os efeitos extremamente nocivos do uso de pesticidas (biocidas químicos) na saúde humana e na natureza.

O Clube de Roma divulgou o relatório “Limites do Crescimento” (1972), no qual analisou os limites físicos da Terra, com base em recursos naturais exauríveis e na capacidade de suporte do Planeta. Previu a longo prazo o fim do crescimento e um eventual colapso do sistema.

Neste mesmo ano a Conferência de Estocolmo marcou o início de uma série de eventos de âmbito global que colocariam de vez a questão ambiental na agenda mundial. Nos anos e décadas que se seguiram foram realizados diversos eventos como o Seminário de Educação Ambiental em Belgrado, a Conferência sobre Educação Ambiental de Tbilisi e a Rio-92.

E mais que reuniões foram produzidos estudos e documentos que deram corpo ao campo da educação ambiental. Dentre vários, destaco como fundamentais para a Educação Ambiental a Carta de Belgrado, a Declaração de Tbilisi, o Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global e a Carta da Terra.

É muito significativo notar como todos esses documentos reconheceram igualmente a relação direta entre o Modelo de Desenvolvimento Econômico Capitalista e as mazelas humanas e ambientais.

Para termos uma ideia, Estocolmo afirmou a necessidade de mudança de estilo de vida. Belgrado colocou como absolutamente vital apoiarmos um crescimento econômico que não implique em prejuízo às pessoas e ao meio ambiente. O Tratado de Educação Ambiental apontou que as causas primárias dos problemas socioambientais podem ser encontradas no modelo de civilização dominante, baseado na superprodução e no superconsumo para uns e no subconsumo e falta de condições de produzir para outros. A Carta da Terra reforçou que os padrões dominantes de produção e de consumo estão causando devastação ambiental e social e que portanto precisamos adotar novos padrões respeitosos e sustentáveis.

Ou seja, não é de hoje que o mundo reconheceu os prejuízos e os sofrimentos causados pelo Sistema Capitalista de Produção e de Consumo. E mais, enxergou a Educação Ambiental como um processo competente para transformar essa realidade e criar uma sociedade melhor, baseado no respeito e na sustentabilidade.

A Educação Ambiental foi vista como um caminho para desenharmos um novo modelo de sociedade. Uma vez que perceberam o tradicional modelo de educação como desconectado das realidades e como incapaz de promover a mudança necessária.

Educação Ambiental como caminho

Mas por que será que a Educação Ambiental seria a Educação ideal para a formação de um novo Modelo de Desenvolvimento? O que significa educação ambiental?

Para início de conversa é sempre bom pontuar que Educação Ambiental é Educação e enquanto processo educativo tem como finalidade última criar condições para o florescimento das potencialidades humanas. Dentre a multiplicidade de potenciais que carregamos em nós, a expressão “ambiental” vem ressaltar nossa capacidade e necessidade de aprender a viver em harmonia com nosso ambiente natural, o que se dá por meio de conexões (em vários níveis) entre os indivíduos, entre todos os seres vivos e com o Universo.

Educação Ambiental é um processo de aprendizagem permanente que busca sabedoria, respeito e compaixão, e que naturalmente formará seres humanos mais dignos e comunidades de paz.

Educação, portanto, não deve ser confundida com conhecimento técnico, com formação de profissionais para o mercado de trabalho. A experiência humana na Terra pode e deve ser rica e profunda. Isso envolve nosso desenvolvimento intelectual, físico, emocional, espiritual, moral, entre outros.

A Educação Ambiental pelas características que carrega é capaz de provocar uma profunda transformação no ser humano e no modo como nós interagimos com a comunidade da vida. Trata-se de uma educação integral, ecológica, complexa, que abrange dimensões intelectuais, morais, espirituais e sociais, tendo em vista a formação de comunidades sustentáveis e pacíficas.

Para essa mudança ser possível podemos dizer que a Educação Ambiental trabalha essencialmente coração, mente e mãos, mediante o fortalecimento de uma nova visão de mundo, do resgate de valores universais, do cultivo de uma ética ambiental e da incorporação de novos comportamentos. Por mais complexo que seja, só assim teremos de fato uma mudança real e duradoura.

  1. Do ponto de vista das percepções, se tornou vital para o ser humano desenvolver uma visão de mundo holística. Para isso, precisamos adquirir a capacidade de pensar sistemicamente, compreendendo que estamos todos conectados entre si, que dependemos uns dos outros e que fazemos parte da mesma teia da vida/comunidade ecológica. Significa desenvolvermos habilidades para conectar e contextualizar os fatos e compreender suas origens e suas implicações indo além das óbvias. Precisamos ter nítido em nossa tela mental as relações que podem existir, por exemplo, entre o que estamos vestindo e uma criança que sobrevive escravizada dentro de uma confecção; entre o batom que passamos e os coelhos que estão sendo torturados e mortos pelas empresas de cosmético; entre um alimento não orgânico e a contaminação das águas subterrâneas. Junto com esta compreensão é indispensável desenvolvermos também habilidades para propor soluções e caminhos de forma inovadora e articulada.
  2. Em relação aos nossos valores, a Educação Ambiental desempenha o papel de resgatar e de fortalecer valores humanos e universais, tais como a compaixão, a solidariedade e a cooperação. Todos valores coletivos de caráter integrativo que devem ter sua importância reconhecida de modo a equilibrar os valores individuais de autoafirmação tão disseminados na sociedade. A Educação Ambiental enaltece sentimentos de amor, de respeito e de cuidado com o outro, expandindo este outro para além da espécie humana, envolvendo toda forma de vida.
  3. Somado a esses valores universais, a Educação Ambiental se propõe a cultivar uma ética ambiental, perfeitamente refletida nos conceitos da Ecologia Profunda. Segundo esta teoria toda vida humana e não humana tem seu valor intrínseco/ inerente e deve ser respeitada, e esse valor não deve ser de modo algum medido conforme sua utilidade para a raça humana. Isto é, se refere a valores ecocêntricos e não mais antropocêntricos. É essa consciência ecológica profunda que devemos adquirir e trazer para nossa vida diária, criando assim um novo sistema de ética.
  4. Todos esses elementos (percepção sistêmica, valores universais e ética ambiental da ecologia profunda) devem ser incorporados e refletidos em novos comportamentos. Refere-se a uma transformação individual e coletiva que gera um novo estilo de vida humano. A Educação Ambiental é um processo que visa a formação de indivíduos críticos, reflexivos, emancipados e solidários. Pretende formar cidadãos que sejam capazes de planejar suas próprias vidas e de atuar em prol da comunidade local e planetária, de modo participativo e democrático.

Vamos pensar agora em para quem a Educação Ambiental é feita. Qual seu público-alvo? E em que lugar acontece?

É muito importante pontuar que todas essas reflexões e desconstruções promovidas pela Educação Ambiental devem acontecer em qualquer ambiente (não apenas no escolar) e devem estar voltadas para todas as pessoas (não somente às crianças).

A esse respeito, a Declaração de Estocolmo assinalou que deve ser implementada dentro e fora das escolas, e direcionada para o público em geral, em particular ao cidadão comum.

Da mesma forma a Declaração de Tbilisi afirmou que ela “deve ser orientada para a comunidade, envolvendo o indivíduo num processo ativo de resolução de problemas que permita resolvê-los no contexto de realidades específicas, estimulando a iniciativa, o sentido da responsabilidade e o empenho de construir um futuro melhor.”

E ainda, o Tratado de Educação Ambiental em um de seus princípios esclareceu que ela deve estimular e potencializar o poder das comunidades, que devem planejar suas próprias alternativas às políticas vigentes, retomando a condução de seus próprios destinos.

Moral da história

Falar em Educação Ambiental é falar em desconstruir o modelo de civilização dominante no mundo. Envolve uma profunda mudança humana, social, ambiental, econômica e cultural, que se torna possível por meio da formação de indivíduos éticos, conscientes e comprometidos com a criação de comunidades pacíficas e sustentáveis.

Deve provocar reflexões e questionamentos sobre como cada um de nós vive e sobre o que cada um pode fazer dentro da sua realidade para criar um mundo saudável para toda as vidas.

Não é pouca coisa. Trata-se de transformar a forma de viver, de pensar e de sentir das pessoas. É um trabalho complexo, demorado, de semear, de cuidar, e sobretudo de acreditar.

Acredito na Educação Ambiental como caminho para alcançarmos uma vida ecológica, de amor e de compaixão.

É um processo que nos permite passar de um Modelo de Civilização para um Modelo de Humanidade, de um Sistema de Desenvolvimento Econômico para um Sistema de Evolução Humana Integral, e de uma sociedade de consumo para uma comunidade sustentável.

E essa é a noção que eu me propus aqui a difundir e eu espero ter contribuído da melhor maneira possível.

Fontes e Referências:
– Primavera Silenciosa. Rachel Carson. 1970.
– Limites do Crescimento. Donella Meadows. 1972.
– Declaração de Estocolmo, 1972.
– Carta de Belgrado, 1975.
– Declaração de Tbilisi, 1977.
– Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, 1992.
– Carta da Terra, 2000.
– Educação Ambiental – princípios e práticas. Genebaldo Freire Dias. 2004.
– Teia da Vida. Fritjof Capra. 1996.
– Alfabetização Ecológica. Fritjof Capra.

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