Cidadania e Consumismo

Como ser um cidadão ético vivendo em uma sociedade de consumo? Em “tempos líquidos” é fundamental desenvolvermos uma percepção sistêmica sobre como uma decisão de compra está intimamente relacionada a questões políticas, éticas, ambientais e sociais.

O consumo

A abundância na produção de bens de consumo, própria do sistema industrial, representa o sucesso das economias capitalistas. Culturalmente, os bens indicam uma manifestação de valores e de posição social e no ato de consumir desenvolve-se um sentido de pertencimento a um grupo. Logo, a atitude de consumir não é neutra, não é individual e não é despolitizada. Pelo contrário,

“[…] trata-se de uma atividade que envolve a tomada de decisões políticas e morais praticamente todos os dias. Quando consumimos, de certa forma manifestamos a forma como vemos o mundo. Há, portanto, uma conexão entre valores éticos, escolhas políticas, visões sobre a natureza e comportamentos relacionados às atividades de consumo”.

Manual de educação para o consumo sustentável, Governo Federal (2005)

A sociedade de consumo e o consumismo

Nitidamente influenciada pelo estilo de vida estadunidense, a sociedade de consumo expandiu-se e o consumo tornou-se um vício ou uma compulsão, alavancado pelo mercado, pela moda e pela propaganda. Algumas características deste modelo de sociedade consumista são:

  • Produção de carências e desejos incessantes;
  • Reconhecimento e julgamento das pessoas de acordo com o que consomem e exibem;
  • Tendência a reduzir a felicidade e a qualidade de vida às conquistas materiais;
  • Favorecimento do egocentrismo e de escolhas inconsequentes;
  • Transformação do cidadão em mero consumidor.

Este padrão de consumo e de comportamento das sociedades modernas precisa ser repensado e modificados o quanto antes. É um modelo que reduz a experiência de vida humana e a transforma em uma corrida por prazeres materiais. Além do que, promove um estilo de vida ambientalmente insustentável, socialmente injusto e moralmente indefensável.

Políticas ambientais e sustentabilidade

A partir da Rio-92, o impacto ambiental do consumo passou a ser tratado como política ambiental, ligada a ações de sustentabilidade. Iniciou-se, então, um movimento para mudança nos padrões de consumo envolvendo corresponsabilidade dos indivíduos. O objetivo é fazer com que os cidadãos percebam como as atividades cotidianas, de compras rotineiras refletem comportamentos e escolhas que impactam o meio ambiente. Foi constatado que estilos de vida diferentes atuam de forma diferente na degradação ambiental. Neste sentido, foram identificadas seis características a serem observadas em estratégias de consumo sustentável:

  1. Fazer parte de um estilo de vida sustentável;
  2. Contribuir para nossa capacidade de aprimoramento, individual e coletivamente;
  3. Ser justa no acesso ao capital natural, econômico e social para as presentes e futuras gerações;
  4. Tornar o consumo material cada vez menos relevante para a felicidade e para a qualidade de vida;
  5. Ser coerente com a conservação e melhoria do ambiente natural; e
  6. Acarretar em um processo de aprendizagem, criatividade e adaptação.

Ao mesmo tempo, é importante ficarmos atentos para que a responsabilidade do Estado e do mercado não seja transferida unicamente para os consumidores. Ela deve ser compartilhada por todos, em cada esfera de ação.

Ao assumirmos o papel e a responsabilidade que nos cabe enquanto consumidores, estamos nos fortalecendo politicamente enquanto cidadãos. A partir desta visão da temática ambiental surgiram algumas estratégias, como o “consumo verde”, o “consumo ético”, o “consumo responsável”, o “consumo consciente” e o “consumo sustentável”.

Estratégias ambientais propostas

Consumo verde: nesta proposta, a escolha da compra considera a qualidade, o preço e a variável ambiental, priorizando bens e serviços que causem menos impacto ambiental em seu processo produtivo. Um dos seus benefícios, está em fazer com que cidadãos comuns sintam-se capazes de colaborar ativamente em prol do meio ambiente. Por outro lado, o consumo acabou resumindo-se à troca entre diferentes marcas, que, uma vez percebida pelos produtores, gerou um novo nicho de mercado. Além disso, não abrangeu a questão da desigualdade no acesso aos bens ambientais.

Consumo ético/ responsável/ consciente: conforme estas estratégias, as escolhas devem abranger tanto os aspectos ecológicos quanto os sociais. Engloba compromisso ético, consciência e responsabilidade por parte do consumidor em relação às consequências resultantes de seu comportamento.

Consumo sustentável: esta proposta pretende ser a mais ampla. Envolve não apenas mudanças individuais de consumo, como também “ações coletivas e mudanças políticas, econômicas e institucionais para fazer com que os padrões e os níveis de consumo se tornem mais sustentáveis”. Associa o meio ambiente com a questão de acesso, distribuição e justiça social e ambiental. Enfatiza as ações de consumo enquanto práticas políticas, relacionando-as com o processo de formulação e implementação de políticas públicas, e com os movimentos sociais.

A discussão quanto aos padrões e níveis de consumo necessita ser ampliada, incluindo aspectos diversos e construindo laços entre todos os setores da sociedade. Estes setores são corresponsáveis e devem estabelecer relações mais solidárias entre si.

Consumo e Cidadania

Cidadania é um conceito em constante expansão com o intuito de sempre abraçar direitos emergentes, e gira em torno da luta política e de conflitos reais. O ato do consumo, por sua vez, se pauta por uma orientação cultural do que é tido como importante para nossa vida social. Portanto, da mesma forma, cidadania e consumo podem ser entendidos como processos culturais e práticas sociais, que coexistem de forma indissociável, não podendo um ser desvinculado do outro.

O consumo tornou-se um lugar onde é difícil “pensar” por causa da sua subordinação às forças de mercado. Mas os consumidores não são necessariamente alienados e manipulados. Ao contrário, o consumidor também pode ser crítico, “virando o feitiço contra o feiticeiro”. O consumidor “também pensa” e pode optar por ser um cidadão ético, consciente e responsável, buscando alternativas de consumo mais sustentáveis. Podemos atuar de forma subordinada aos interesses do mercado, ou podemos ser insubmissos às regras impostas de fora, erguendo-nos como cidadãos e desafiando os mandamentos do mercado. Se o consumo pode nos levar a um desinteresse pelos problemas coletivos, pode nos levar também a novas formas de associação, de ação política, de lutas sociais e reivindicação de novos direitos.

Fontes consultadas:
Manual de educação para o consumo sustentável, Ministério da Educação, Governo Federal (2005).
– “Tempos líquidos”, Zygmunt Bauman (2007).

Foto: Artem Beliaikin

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