Paradigmas

O pensamento sistêmico segundo Fritjof Capra

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O físico austríaco Fritjof Capra, ao longo das últimas décadas, vem se dedicando à pesquisa de temas relacionados à visão de mundo, mudança de paradigmas e educação ecológica. Autor de obras que se tornaram referência para o pensamento sistêmico, também faz parte do Conselho da Carta da Terra.

Desafios ambientais globais

Afirma que, ao final do século XX o mundo viu-se diante de problemas ambientais de dimensão global, problemas esses não passíveis de serem compreendidos isoladamente por serem essencialmente sistêmicos e, portanto, estarem naturalmente interligados e interdependentes. Tais problemas refletem diferentes aspectos de uma mesma crise, a crise de percepção, que tem sua origem numa visão de mundo ultrapassada e que suscita uma transformação profunda em nossas percepções, pensamentos e valores, ou seja, requer uma mudança de paradigma.

Mudança de paradigma

Esta mudança já está acontecendo e a visão de mundo mecanicista vem sendo questionada e revista, abrindo cada vez mais espaço a um novo paradigma denominado holístico ou ecológico. Pode ser entendido como holístico na medida em que concebe o mundo como um todo integrado, compreendendo as interdependências de suas partes.

Também pode ser dito como ecológico se considerado no sentido da ecologia profunda. Esta ecologia reconhece a interdependência essencial a todos os fenômenos, bem como o fato de estarmos todos encaixados em processos cíclicos da natureza, considerando seus ambientes natural e social. Nesse sentido, a ecologia profunda entende o mundo como uma rede de fenômenos interconectados e interdependentes, reconhecendo o valor intrínseco a todos os seres vivos e os seres humanos apenas como mais um fio na teia da vida.

Visão sistêmica

A perspectiva holística ficou conhecida no meio científico como “sistêmica” e sua forma de pensar como “pensamento sistêmico”. Podemos entender por sistema “um todo integrado cujas propriedades essenciais surgem das relações entre suas partes”. Por sua vez, pensamento sistêmico refere-se a “compreensão de um sistema dentro do contexto de um todo maior”. De acordo com a visão sistêmica, as propriedades essenciais de um organismo se encontram no todo e decorrem das relações entre suas partes, somente sendo compreendidas a partir da organização do todo, isto é, dentro de um contexto mais amplo.

Ecologia

No âmbito do pensamento sistêmico destaca-se a ciência da ecologia, que significa o estudo das relações que interligam todos os membros do Lar Terra. Esta ciência trouxe ainda o importante conceito de ecossistemas entendido hoje como “uma comunidade de organismos e suas interações ambientais físicas como uma unidade ecológica”, gerando uma abordagem sistêmica da ecologia.

Assim, a ecologia contribuiu com a visão sistêmica introduzindo as noções de comunidade e de rede. As comunidades ecológicas são vistas como conjuntos de organismos conectados à maneira de rede por meio de relações de alimentação. Este entendimento posteriormente originou a concepção de teias alimentares.

Inter-relações e Interdependência

Considerando que os sistemas vivos são redes em todos os níveis, a teia da vida deve ser vista como sistemas vivos que interagem como redes com outros sistemas. Ou seja, são redes dentro de outras redes, formando uma “hierarquia” da natureza, na qual não há “acima” ou “abaixo”.

De acordo com Capra, a nova percepção do mundo se pauta na consciência deste estado de inter-relações e interdependência inerente aos fenômenos físicos, psicológicos, biológicos, sociais e culturais. Entende os sistemas como totalidades integradas com propriedades não reduzíveis a unidades menores. Uma vez que o sistema é fragmentado em elementos isolados, as propriedades sistêmicas desaparecem.

Representa as relações existentes entre os diferentes níveis sistêmicos por uma “árvore sistêmica”. Assim como uma árvore, as relações são formadas por interligações e interdependências presentes em todos os níveis sistêmicos.

A maioria dos sistemas vivos exibem modelos de organização em múltiplos níveis, caracterizados por muitos e intrincados percursos não-lineares, ao longo dos quais se propagam sinais de informação e transação entre todos os níveis, tanto ascendentes quanto descendentes. (…) árvore, símbolo mais apropriado para a natureza ecológica da estratificação nos sistemas vivos. Assim como uma árvore real extrai seu alimento tanto através das raízes como das folhas, também a energia numa árvore sistêmica flui em ambas as direções, sem que uma extremidade domine a outra, sendo que todos os níveis interagem em harmonia, interdependentes, para sustentar o funcionamento do todo.” (CAPRA, 2006, p. 274).

Características-chave

Capra definiu sete critérios como características-chave do pensamento sistêmico. Estes critérios são comuns ao paradigma ecológico em todas as ciências. São eles:

1. Mudança das partes para o todo. As propriedades essenciais ou sistêmicas das partes somente podem ser compreendidas contextualmente pela dinâmica do todo, pois surgem de relações de organização das partes;

2. Capacidade de deslocamento da observação dos fenômenos entre diferentes níveis sistêmicos. Os níveis sistêmicos possuem distintos níveis de complexidade e propriedades inerentes a cada nível, denominadas propriedades emergentes;

3. Mudança de pensamento de estrutura para processo. O pensamento sistêmico é um pensamento processual, segundo o qual toda estrutura observada é entendida como a manifestação de processos subjacentes;

4. Substituição da metáfora da construção pela metáfora da rede. Isto é, transição do conceito da noção de conhecimento como um edifício construído em fundações sólidas pela visão de mundo como uma rede de relações sem alicerces firmes, regida por uma teia dinâmica de fenômenos inter-relacionados;

5. Mudança da ciência objetiva (independente do observador humano e do processo de conhecimento) para uma ciência epistêmica. A epistemologia deve ser explicitamente incluída na descrição dos fenômenos naturais, tornando-se parte integral das teorias cientificas;

6. Deslocamento da crença cartesiana na verdade absoluta para a abordagem sistêmica de descrições aproximadas da realidade. O novo paradigma reconhece a limitação das concepções científicas, apresentando ao mesmo tempo a descoberta do conhecimento aproximado. Isto porque, todos os eventos estão interconectados e para explicá-los seria preciso compreender todos os outros, o que seria impossível;

7. Mudança de atitude de dominação e controle da natureza para comportamento cooperativo e de não violência.

Fontes consultadas:
CAPRA, Fritjof. O Ponto de Mutação – A Ciência, a Sociedade e a Cultura emergente. 27ª ed. São Paulo: Cultrix, 2006.
____________ A Teia da Vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. 8ª ed. São Paulo: Cultrix, 2003.
____________ O Tao da física: uma análise dos paralelos entre a física moderna e o misticismo oriental. 2ª ed. São Paulo: Cultrix, 2013.

Foto de abertura: Dennis Larsen

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