Paradigmas

A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento, de Edgar Morin

pensamento-ecologizante
Neste artigo falaremos sobre a obra intitulada “A Cabeça Bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento”, do filósofo francês Edgar Morin. Nela, Morin discorre acerca das limitações apresentadas pelo paradigma cartesiano reducionista frente aos complexos desafios dos dias atuais. Nesse sentido, aponta para a necessidade de uma reforma paradigmática que conduza a um modelo de pensamento integrador e amplo, ao qual denominou “pensamento ecologizante”.

Limitações do modelo mecanicista

Ao longo da década de 50, o biólogo alemão Ludwig von Bertalanffy formulou a Teoria Geral dos Sistemas, afirmando que o todo é mais que o conjunto das partes que o compõem. Já durante a década de 60 uma segunda Revolução Científica foi iniciada em diversas áreas do saber.

O paradigma cartesiano-mecanicista, pautado pelos princípios da separação e da redução, passou a ser questionado no mundo científico. Algumas de suas desvantagens e inadequações tornaram-se evidentes, dentre elas estão:
– A incapacidade de perceber o global;
– Tornar invisível os elementos multidimensionais e a relação entre as partes e o todo;
– A impossibilidade de compreender o complexo;
– O atrofiamento das possibilidades de reflexão; e
– A perda de aptidões naturais para contextualização dos saberes.

Sua insuficiência para tratar nossos problemas mais graves constitui um dos mais graves problemas que enfrentamos. De modo que, quanto mais os problemas se tornam multidimensionais, maior a incapacidade de pensar sua multidimensionalidade; quanto mais a crise progride, mais progride a incapacidade de pensar a crise; quanto mais planetários tornam-se os problemas, mais impensáveis eles se tornam. Uma inteligência incapaz de perceber o contexto e o complexo planetário fica cega, inconsciente e irresponsável.” (MORIN, 2014, p. 15).

Necessidade de novas percepções

As insuficiências desse pensamento fragmentado e superespecializado indicam a necessidade de transformação nas formas de conhecimentos. Esta transformação implica na substituição do pensamento que isola e separa pelo que distingue e une; do redutor pelo complexo; e da causalidade linear e unidirecional pela causalidade circular e multirreferencial.

Trata-se de um saber que compreende a interligação e interdependência entre as partes e o todo. Reconhece as multidimensionalidades, bem como as realidades antagônicas e complementares, e respeita as diferenças percebendo ao mesmo tempo sua unicidade.

Uma cabeça bem-feita é uma cabeça apta a organizar os conhecimentos e, com isso, evitar sua acumulação estéril.”

Para Morin, a reforma paradigmática é uma reforma do pensamento concernente à capacidade para organização do conhecimento. A questão essencial da organização do saber gira em torno da aptidão geral para situar e tratar os problemas e de princípios organizadores que conectem os saberes, conferindo-lhes sentido. Afirma que os seres humanos já nascem com esta aptidão, que está diretamente relacionada ao livre exercício da curiosidade e à formulação de questionamentos. Esclarece que, quanto maior for nossa inteligência geral, maior será nossa capacidade para solucionar problemas especiais e complexos.

Trata-se de um pensamento “ecologizante” na medida em que favorece a contextualização, situando todo fenômeno em relação ao seu meio ambiente e evidenciando como este o influência de diversas maneiras. É ainda um pensamento do complexo, pois busca identificar conexões entre o acontecimento e seu contexto global. Percebe a um só tempo a unidade e a diversidade, caracterizando-se como um pensamento unificador.

Princípios do pensamento que une

Abaixo, mencionamos sete princípios a serem observados de maneira complementar a fim de alcançarmos um pensamento ecologizante, segundo o autor.

1. Sistêmico ou organizacional: conecta o conhecimento das partes ao conhecimento do todo, reconhecendo as propriedades inerentes a cada um e à soma dos dois;

2. Hologrâmico: percebe a totalidade contida em cada parte do todo;

3. Do circuito retroativo: baseado nos processos auto-reguladores, em que as retroações dos fenômenos podem ter inúmeros efeitos, ultrapassando o princípio da causalidade linear;

4. Do circuito recursivo: refere-se a um circuito gerador no qual “os produtos e os efeitos são, eles mesmos, produtores e causadores daquilo que o produz”;

5. Da autonomia/ dependência: concebe os seres humanos como seres auto-ecoorganizadores, que apesar de se autoproduzirem, dependem de energia, informação e organização do meio ambiente para manter sua autonomia;

6. Dialógico: compreende a indissociabilidade de noções contraditórias a fim de conceber um fenômeno complexo. Ou seja, um “pensamento deve assumir dialogicamente os dois termos, que tendem a se excluir um ao outro”, tais como ordem/ desordem/ organização;

7. Da reintrodução do conhecimento em todo conhecimento: reintroduz o sujeito e seu contexto à teoria científica.

Organização do Conhecimento

Morin ressalta que, a reforma do pensamento é uma reforma paradigmática que diz respeito à nossa capacidade de organização do conhecimento, de modo a possibilitar o desenvolvimento pleno da inteligência geral. Coloca a importância de percebermos que a nossa lucidez depende do grau de complexidade segundo o qual organizamos nossas ideias.

[…] um modo de pensar, capaz de unir e solidarizar conhecimentos separados, é capaz de se desdobrar em uma ética da união e da solidariedade entre humanos. Um pensamento capaz de não se fechar no local e no particular, mas de conceber os conjuntos, estaria apto a favorecer o senso da responsabilidade e o da cidadania. A reforma de pensamento teria, pois, consequências existenciais, éticas e cívicas.” (MORIN, 2014, p. 97).

Referência:
MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014.

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