Paradigmas

Educação e espiritualidade ecológicas, pelo Papa Francisco – Parte II

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Neste segundo texto sobre a carta encíclica Laudato Si’ do Papa Francisco, falaremos mais um pouco sobre seu último capítulo, “Educação e Espiritualidade Ecológicas”. Abordaremos os tópicos “A conversão ecológica”, “Alegria e paz” e “Amor civil e político”.

A conversão ecológica

Não é possível empenhar-se em coisas grandes apenas com doutrinas, sem uma mística que nos anima, sem uma moção interior que impele, motiva, encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária.

A partir desse entendimento, podemos compreender que a superação da crise ecológica envolve uma transformação interior profunda. Para mudarmos este quadro geral é preciso que cada um de nós, enquanto indivíduo olhe para seu interior, se perceba como parte de uma coletividade e encontre sua motivação para contribuir para um mundo melhor. Essa percepção nos trará uma postura ativa e uma busca por hábitos mais coerentes. Trata-se de uma conversão ecológica profunda.

Aqui, o cuidado com a natureza não é uma opção, mas sim parte essencial para alcançarmos uma existência virtuosa, uma vida digna. Precisamos avaliar nossas próprias vidas e atitudes e enxergar como ofendemos a natureza, seja por ação seja por omissão.

No entanto, uma vez que estamos lidando com problemas sociais, não devemos nos restringir a ações isoladas. A conversão ecológica precisa ser uma conversão comunitária, estruturada em redes. Por meio destas redes, podemos unir forças e contribuir juntos para solucionar problemas socioambientais.

Esta conversão profunda ecológica comporta várias atitudes, como:

  • gratidão e gratuidade, pela qual entendemos o mundo como doação divina, o que naturalmente nos leva a atos de renúncia e de generosidade;
  • consciência amorosa, que induz a um sentimento de comunhão universal, no qual reconhecemos os laços que unem todos os seres;
  • criatividade e entusiasmo, como forma de resolvermos os problemas da humanidade.
  • Alegria e paz

    A acumulação constante de possibilidades para consumir distrai o coração e impede de dar o devido apreço a cada coisa e a cada momento. Pelo contrário, tornar-se serenamente presente diante de cada realidade, por menor que seja, abre-nos mais possibilidades de compreensão e realização pessoal.

    A espiritualidade cristã propõe a adoção de um estilo de vida profético, contemplativo e simples, bem como um crescimento baseado na sobriedade e na capacidade de se alegrar com pouco. Uma vida sóbria, sem excessos nos traz liberdade e nos permite viver mais intensamente cada momento, encontrando a alegria nas coisas mais simples. Ser feliz exige sabedoria, sabedoria para identificar e eliminar necessidades ilusórias, abrindo caminho para as infinitas possibilidade que a vida nos oferece.

    A integridade da natureza está ligada à integridade da vida humana. Uma vida integral, guiada por valores como sobriedade e humildade, produz uma sociedade e um ambiente sadios. Assim como, uma vida desprovida de valores morais gera desequilíbrio e prejuízos sociais e ambientais.

    Para atingirmos esta sobriedade feliz, precisamos alcançar a paz interior. Esta paz interior se traduz em um modo de vida equilibrado, que envolve um cuidado com o bem comum e com a ecologia. O desequilíbrio induz as pessoas a se manterem sempre ocupadas e com pressa, além de levar ao consumo excessivo. O restabelecimento da paz e da harmonia demanda a dedicação de tempo, para refletirmos sobre nossas ações, pensamentos e valores.

    É um despertar do coração, para uma vida plena, de profunda entrega ao momento presente e de serena atenção. Estar presente é um caminho para a superação das nossas crises. Um belo exemplo disso é o hábito de parar e agradecer antes e depois das refeições, honrando nosso alimento e reforçando o sentimento de solidariedade com os mais necessitados.

    Amor civil e político

    É necessário voltar a sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo, que vale a pena sermos bons e honestos. Vivemos já muito tempo na degradação moral, descartando a ética, a bondade, a fé, a honestidade; chegou o momento de reconhecer que esta alegre superficialidade de pouco nos serviu.

    O cuidado com o meio ambiente nasce de um estilo de vida no qual as pessoas sabem viver juntas, em comunhão universal. Ao desprezarmos os valores que sustentam esta vida em sociedade nos isolamos e passamos a competir uns com os outros, visando somente interesses pessoais. Este cenário favorece inúmeras formas de violência e dificulta o desenvolvimento do pensamento ecológico.

    Neste contexto, somos convidados a trilhar o “pequeno caminho do amor”, aproveitando qualquer oportunidade que surgir para adotarmos atos de carinho, de gentileza e de amizade. Lembrando que, a ecologia integral também se faz com simples gestos no dia a dia, gestos que se elevam e rompem com a lógica do egoísmo e da violência.

    O amor civil e político se manifesta nas atitudes que visam contribuir para um mundo melhor. É aquele que se importa com a sociedade e o com o bem comum, indo além das relações pessoais. Refere-se ao amor social, presente nas esferas política, econômica e social, colaborando para um autêntico desenvolvimento.

    Unindo os pequenos gestos de amor ao amor social, devemos pensar em soluções eficazes que propiciem uma cultura do cuidado como estilo de vida de toda a sociedade. Ao abraçar uma causa em prol do bem comum, a comunidade se liberta da indiferença consumista. Ela deixa de ser indiferente e passa a se importar e a agir em nome de uma necessidade real e comunitária. Essas ações cultivam uma identidade comum e o sentimento de solidariedade, e ao serem feitas com amor podem se transformar em intensas experiências espirituais.

    Referência:
    Papa Francisco. Carta Encíclica: Sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015.

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