Paradigmas

Educação e espiritualidade ecológicas, pelo Papa Francisco – Parte I

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Em junho de 2015, foi publicada a Carta Encíclica do Papa Francisco intitulada “Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum”. Dotada de grande viés ambiental, representa uma importante contribuição ao movimento da educação ecológica. Dividida em 6 capítulos, abordaremos (em duas partes) o último capítulo denominado “Educação e espiritualidade ecológicas”.

Educação e espiritualidade ecológicas

Inicia o capítulo afirmando que muitas coisas precisam ser modificadas, e que a primeira delas é o ser humano. Aponta para a necessidade de tomarmos consciência de nossa origem comum e do futuro a ser compartilhado entre todos os seres vivos. A partir daí, novas crenças e novos estilos de vida poderão ser desenvolvidos. Temos, portanto, um desafio cultural, espiritual e educativo que envolve processos longos de regeneração e que depende da vontade de cada um de nós.

Apontar para outro estilo de vida

Nosso modelo de mercado consumista compulsivo leva a compras e gastos supérfluos. Cita Romano Guardini, segundo o qual a sociedade “aceita os objetos comuns e as formas habituais da vida como lhe são impostos pelos planos nacionais e pelos produtos fabricados em série e, em geral, age assim com a impressão de que tudo isto seja razoável e justo.” Dentro desta realidade construída, a humanidade não alcançou a compreensão de si mesma e esta ausência de identidade gera uma vida vazia e cheia de ansiedade.

Este cenário favorece sentimentos negativos, que resultam num egoísmo coletivo. As pessoas passam a se fechar em suas próprias vidas e se tornam autorreferenciais. Quanto maior a sensação de vazio em seus corações, maior a voracidade pelo consumo. Neste mundo, obcecado por um estilo de vida consumista, o bem comum não existe e os interesses individuais ditam as normas.

No entanto, o Papa Francisco acredita que nós, seres humanos, somos capazes de nos regenerar e de escolhermos o bem.

Não há sistemas que anulem, por completo, a abertura ao bem, à verdade e à beleza, nem a capacidade de reagir que Deus continua a animar no mais fundo dos nossos corações.

Aposta na mudança dos estilos de vida como forma de pressionar os detentores do poder econômico, político e social. Cita como exemplo o movimento dos consumidores, que por meio de boicotes forçam empresas a reconsiderarem seu modelo produção. O ponto central é notarmos como nossos hábitos tem relação direta com os lucros das empresas, assumindo nossas responsabilidade enquanto consumidores.

Faz referência à Carta da Terra, que chamava todos nós para um recomeço. Reafirma seus dizeres, conclamando para que o nosso tempo seja lembrado “pelo despertar de uma nova reverência perante a vida, pela firme resolução de alcançar a sustentabilidade, pela intensificação da luta em prol da justiça e da paz e pela jubilosa celebração da vida.” (Carta da Terra)

Veja também: Texto “Sobre a Carta da Terra”

Para isso, o caminho é sair de si mesmo, autotranscender, reconhecendo verdadeiramente o valor do outro. Adotar esse caminho implica na superação da autorreferencialidade, da consciência isolada e do individualismo. Autotranscender é a chave que nos permite ir em direção ao outro e que nos desperta para o cuidado com as criaturas e demais elementos do meio ambiente. Desta forma, torna-se possível construirmos um estilo de vida alternativo e efetuarmos mudanças relevantes na sociedade.

Educar para a aliança entre a humanidade e o ambiente

Precisamos desenvolver novos hábitos para enfrentar a grave crise ecológica que se apresenta.

Muitos estão cientes de que não basta o progresso atual e a mera acumulação de objetos ou prazeres para dar sentido e alegria ao coração humano, mas não se sentem capazes de renunciar àquilo que o mercado lhes oferece.

Trata-se de um desafio educativo, no qual a educação ambiental exerce um papel essencial. A Carta aponta que hoje a educação ambiental envolve uma reflexão crítica em relação a conceitos como individualismo, consumismo e concorrência. Além disso, leva ao restabelecimento dos quatro níveis de equilíbrio ecológico: o interior consigo mesmo, o solidário com os outros, o natural com todos os seres vivos e o espiritual com Deus.

Salienta que, por vezes a educação ecológica se restringe a informar, não formando novos hábitos. As transformações pessoais acontecem a partir de motivações adequadas. E o compromisso ecológico se dá com base em virtudes sólidas, capazes de sustentar convicções e sentimentos de cuidado com o outro e com a natureza. Reconhece o valor das pequenas ações realizadas no dia-a-dia, que tem a força de se espalhar e de frutificar.

Compreende que a educação ocorre em vários âmbitos, como na escola, nos meios de comunicação, na Igreja, dando ênfase especialmente à família. No meio familiar devem ser cultivados os primeiros hábitos de amor, de respeito e de cuidado com a vida. A família deve ser local de acolhimento, propício à formação integral do ser humano.

Nesse sentido, indica a relação entre a educação estética (que nos leva a notar a beleza e amá-la) e a preservação do ambiente.

Quando não se aprende a parar, a fim de admirar e apreciar o que é belo, não surpreende que tudo se transforme em objeto de uso e abuso sem escrúpulos. Ao mesmo tempo, se se quer conseguir mudanças profundas, é preciso ter presente que os modelos de pensamento influem realmente nos comportamentos.

Referência:
Papa Francisco. Carta Encíclica: Sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015.

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