Cultivo

Homem e Natureza: Cultura na Agricultura, de Ernst Götsch

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“Aprofunda-te na matéria! Abre os teus sensos! Tenta perceber as formas dadas pela própria natureza! E tu chegarás a criar laços mais íntimos com ela. Isto acarretará mais sensibilidade nos tratos, nas relações com nossos irmãos (seres vivos) no campo e na floresta, bem como nas relações entre os seres humanos.” Com esta frase, Ernst Götsch, inicia a primeira parte de seu livro “Homem e Natureza – Cultura na Agricultura”. Agricultor e pesquisador suíço, residindo no Brasil desde 1982, nesta obra Götsch apresenta algumas diretrizes para a vivência da chamada “agricultura sintrópica”.

Compreensão da vida

A obra encontra-se dividida em duas partes: “A Vida – Um Modo de Ser” e “Planeta Terra – O Nosso Paraíso”. Já nas primeiras linhas fala sobre a necessidade de uma mudança profunda na forma como compreendemos a vida, a fim de alcançarmos uma agricultura, no sentido do termo cultura, que represente uma tentativa culta de conseguir o necessário daquilo que precisamos para viver, sem a necessidade de diminuir e empobrecer a vida na terra. Trata-se de uma agricultura que compreenda uma harmonização das ações humanas com os processos naturais da vida.

Sintropia

Conforme o autor, nossa sociedade ocidental moderna adotou os princípios da física newtoniana que vão do complexo para o simples, na entropia. No entanto, esse pensamento tecnomorfo vem se mostrando equivocado, uma vez que a vida é regida por processos que, em sua maioria, vão do simples para o complexo, na sintropia. No processo de sintropia cada espécie (dentre elas, a humana) exerce uma função dentro de um contexto maior, formando um macroorganismo gerador de um balanço energético positivo.

Por outro lado, o Universo é regido por energias provindas de processos de desagregação, do complexo para o simples (entropia), e sendo a vida na Terra parte deste Universo, também ela comporta processos de entropia. Ainda assim, ocorre que no geral os processos sintrópicos são preponderantes e, em última análise, os processos entrópicos favorecem a sintropia. Portanto, cada ser vivo é entrópico em si mesmo, mas com a função de fortalecer os processos sintrópicos.

O princípio fundamental da vida neste planeta é a complexificação de resíduos entrópicos, primordialmente dos raios solares. Em cada lugar deste planeta a vida se organiza para otimizar o aproveitamento dos resíduos entrópicos. Muito do que observamos nos fenômenos geofísicos – como a rotação, os ventos, as correntes do mar, os movimentos das placas tectônicas e o vulcanismo – nos indica que o próprio planeta, ativamente, otimiza os processos de vida.”

A Agricultura Sintrópica

A seguir, pontuamos alguns aspectos que representam o sistema de agricultura sintrópica e outros que não fazem parte deste sistema, segundo Götsch.

Envolve

  • Harmonizar as atividades humanas com os processos naturais da vida;
  • Adotar dois critérios básicos para intervenção: aumento de vida e favorecimento de processos sucessionais, gerando um balanço energético positivo;
  • Contribuir para aumentar a fertilidade do solo e a formação de um sistema próspero;
  • Observar, aprender e copiar a natureza;
  • Plantar o que for adaptado a cada lugar;
  • Aprender com pragas, doenças, “ervas ruins” e matos, que indicam tanto os pontos fracos do sistema, quanto o que é mais adequado para cada lugar;
  • Usar técnicas de capina seletiva de ervas, de podação de herbáceas, arbustos e árvores, e de consórcios complexos de espécies de todas as etapas sucessionais.
  • Não envolve

  • Ideia de dominação do mundo;
  • Técnicas de monocultura, capina geral, leiramento e aração de terra;
  • Uso de adubo externo, agrotóxicos, fertilizantes químicos, fogo e maquinaria pesada;
  • Combate a pragas, doenças,”ervas ruins” e matos;
  • Mineralização ou descomplexificação, que implica em perda de vida e regressão na sucessão, resultando em solo pobre.
  • Ernst finaliza com a seguinte orientação:

    Favorece os processos do fluxo natural da vida, favorece a força que a vida tem para aumentar, para complexificar e para transformar os resíduos entrópicos em sistemas vivos! Favorece os processos sucessionais, o veículo em que a vida atravessa o tempo e o espaço! Deixa-te levar pela corrente, pelo fluxo da vida! Tenta usar o barco adequado para cada água! Assim, frondosamente e com abundância, a Mãe Terra te gratificará e tu viverás em paz.”

    Referência:
    GÖTSCH, Ernst. Homem e Natureza: Cultura na Agricultura. Recife: Centro Sabiá, 1997.

    Foto abertura: Site Agenda Götsch

    1 Comentário

    • Fantástico, incrivelmente natural seguir a natureza, seria mais complexo fazer o contrario, pois os danos são destrutivos. Viva a vida, Viva a Sintropia!

    O que você pensa sobre isso?